Dos Naturais aos Mundiais
Irônico pensar que na história do futebol carioca, em seus primórdios, os negros não tinham acesso a atividade. O que o cinema da diápora tem com isto?
Bom, na verdade com a chegada das primeiras câmeras de filmagem no final do século XIX, trazidas pela elite e por poucos profissionais oriundos desta mesma elite (como o pioneiro Afonso Segreto, primeiro cinegrafista em terras brasileiras, oriundo da Itália), começaram a ser registrados os primeiros “naturais”, documentários onde se via o cotidiano desta mesma classe social.

Curioso que antes de Paschoal Segreto (irmão de Afonso, e Midas dos clubes e da jogatina na época, em parceria com Cunha Sales) inaugurar o primeiro cinema no Rio de Janeiro, os clubes desportivos tinham eventuais exibições informais de filmagens domésticas feitas pela elite, e já nestes encontrávamos o panorama de imagens sociais onde o negro aparecia em segundo plano, ou por ser o serviçal da casa, ou por ser um dos milhares das ruas cariocas que entrou em quadro.
A dificuldade de acesso aos bens em geral se refletiu a partir daí tanto no futebol (onde os principais clubes os excluíam, o que permitiu o surgimento das equipes de futebol do Vasco e posteriormente do Flamengo graças a este grande contingente de atletas sem gramado) como no cinema, onde negros apareciam raramente apareciam. Enquanto nos E.U.A. eles apelavam para os "black faces" (oposto do mito carioca do pó-de-arroz tricolor), atores brancos pintados de negros, aqui no Brasil os poucos atores negros representavam índios, em obras como O Guarani (Antonio Leal, 1908) onde o Negro (ator e palhaço) Benjamin de Oliveira interpretava o protagonista Peri, além de outras tantas versões da obra de José de Alencar (O Guarani, de Vittório Cappelaro, de 1926). Nestes filmes o negro figurava substituindo o índio, que sequer teria acesso a este tipo de mídia até os anos 30.
Pensar que levaríamos 4 décadas, um gênio como Grande Otelo, e toda uma evolução no esporte, para que nos anos 60 as estrelas afro-brasileiras do futebol tomassem conta das telas, com as imagens de craques como Pelé e Garrincha criando imagens imortais, e gerando dezenas de documentários e biografias sobre eles, isto pouco antes do Cinema Novo que ampliou esta exposição dos astros e tentou trabalhar a imagem do negro como ícone proletário. No caso do futebol no cinema os reis eram ilustrados, aqueles que foram o divisor de águas.

Basta dizer que na década de 60 e até o início dos 70, Pelé foi ator em diversos filmes, como protagonista (muitos fazendo a si mesmo, inclusive numa autobiografia onde meu pai Clementino Kelé fazia o papel de Dondinho, pai do Rei do futebol), só perdendo para Grande Otelo.
Hoje mesmo que de forma estereotipada, o negro já tem uma presença maior nas telas, sendo que o futebol vem se distanciando cada vez mais do cinema e seguindo para outras mídias, como a TV, a internet e os games, mas pensar no futebol atual sem a presença do negro, ou na seleção brasileira, onde já são maioria, é impensável.
Hoje temos os frutos desta evolução, com um contigente de bons realizadores negros, alguns já ultrapassando a barreira do segundo filme, como Joel Zito Araujo, e vamos assim fazendo nossa seleção de craques.
Filmes brasileiros importantes para refletir sobre o assunto acima (notem que os dois primeiros foram realizados em simultâneo, apesar da biografia do Pelé ter sido relançada mais tarde):
- Rei Pelé (dir. Carlos Hugo Christensen - 1962);
- Garrincha, Alegria do Povo (dir. Joaquim Pedro de Andrade – 1962);
- O Barão Otelo no Barato dos Milhões (dir. Miguel Borges – 1971 – Grande Otelo e Pelé juntos);
- Isto é Pelé (dir. Luiz Carlos Barreto – 1974);
- Garrincha (dir. Fábio Barreto /curta-metragem – 1978);
- Pedro Mico (dir. Ipojuca Pontes – 1985 – curiosidade: Pelé é dublado por Milton Gonçalves);
- A Negação do Brasil (dir. Joel Zito Araujo - 2000);
- Pelé Eterno (dir. Aníbal Massaini Neto – 2004).
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